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Combustíveis fósseis: sustos sociais e econômicos das emissões para a saúde pública

Segundo a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), as emissões dos veículos rodoviários, tais como automóveis, ônibus, caminhões e motocicletas, constituem as principais fontes de poluição nas grandes metrópoles, sendo os combustíveis fósseis, como o diesel e a gasolina, considerados os principais “vilões” nesse processo.

O contexto da pandemia do covid-19 evidenciou os problemas ambientais vivenciados pelos indivíduos no espaço urbano. Quando as cidades literalmente pararam pelas medidas de contenção do vírus, pôde-se observar uma melhora significativa dos níveis de poluição e de emissões de gases de efeito estufa. As cidades, apesar de ocuparem apenas 2% do espaço da Terra, usam cerca de 60% a 80% do consumo de energia e provocam 75% da emissão de carbono, segundo a ONU (2018).

Importante ressaltar que as emissões, tanto de gases de efeito estufa quanto de poluentes locais, afetam diretamente a qualidade de vida das pessoas. Sobretudo os chamados poluentes atmosféricos locais, emitidos no processo de combustão interna dos combustíveis fósseis, a exemplo do ozônio, hidrocarbonetos não metânicos, óxidos de enxofre e de nitrogênio e o material particulado, são substâncias tóxicas que resultam em doenças, como problemas respiratórios e cardiovasculares, além de mortes prematuras.

Dentre esses poluentes, é sabido que o ozônio e o material particulado fino (MP 2,5) são os poluentes que têm os maiores efeitos adversos à saúde humana. Enquanto o ozônio agrava os sintomas de asma, de deficiência respiratória, bem como de outras doenças pulmonares (enfisemas, bronquites, etc.) e cardiovasculares (arteriosclerose), o MP 2,5 é considerado um dos principais responsáveis pelo câncer de pulmão e de outras doenças, tais como arteriosclerose, inflamação de pulmão, agravamento de sintomas de asma, aumento de internações hospitalares e podem levar à morte.

Relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) ajudam a quantificar o trágico impacto que a poluição traz sobre a letalidade das pessoas e os custos econômicos associados a esse problema. Segundo a organização, em estudo recente de 2021, em média, sete milhões de pessoas morrem por ano devido à poluição do ar, sendo que 90% da população mundial está exposta a pelo menos um agente poluente grave. A ONU calculou também, o quanto a poluição do ar custa para a economia global: cerca de US$ 5,3 trilhões, ou o equivalente a 7,2% do PIB mundial. O valor se refere aos gastos com impactos ambientais, saúde e à perda de produtividade decorrente de doenças relacionadas à poluição.

No Brasil, quarenta cidades que monitoram a qualidade do ar estão expostas a níveis de poluição superiores aos seus limites. Segundo estudo conduzido pelo International Council on Clean Transportation (ICCT), os níveis de poluição do ar nas cidades brasileiras representam elevados riscos significativos para a saúde humana, tendo sido responsáveis em 2015 por mais de 50.000 mortes aqui no País, atribuídos principalmente pela exposição a material particulado (PM2,5) e mais de 3.000 óbitos gerados pelo ozônio. Ambas as substâncias são principalmente derivadas dos veículos automotores.

De forma comparativa, a ONU (2016) calculou para o Brasil um índice de poluição de 11,9, o que o coloca em posição intermediária no que se refere à poluição do ar, melhor colocado na comparação com outros emergentes como Rússia (17,1), África do Sul (32,6), China (61,8) e Índia (73,6). O país está atrás, no entanto, de países como Austrália (5,8), Canadá (7,3) e Estados Unidos (8,5). Em termos de mortes provocadas por doenças causadas pela poluição do ar, o Brasil contabilizou cerca de 14 mortes a cada 100 mil habitantes em 2012, abaixo de países como Bolívia (31) e Argentina (18), mas longe de nações com índices extremamente baixos, como Austrália (0,2)

Todos esses números são indicativos que o atual modelo de desenvolvimento, concretizado nos centros urbanos, além de apresentar os aspectos sociais, acima descritos, que incorrem em deterioração da qualidade de vida e mortes, possuem fortes impactos econômicos. Os gastos do Estado decorrentes do maior número de atendimentos e internações hospitalares, bem como o uso de medicamentos, são cada vez maiores em todo o mundo.

Em nada contribui o crescimento desordenado das cidades, sem planejamento e desenho urbano, consubstanciado ao transporte individual ancorado nos combustíveis fósseis. Assim, são necessárias ações para controlar as emissões dos veículos, além de incentivar novas tecnologias que sejam consideradas mais ambientalmente sustentáveis, como os combustíveis limpos e renováveis e os carros elétricos. As cidades se apresentam, de forma propícia, para desenvolver medidas e estratégias locais para a promoção da descarbonização do transporte urbano, posicionando-se como indutoras da transição energética sustentável.


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